Dia 24 de setembro tivemos uma experiência incrível que queríamos faz muito tempo, apresentar um espetáculo no Arsenal da Esperança em São Paulo.
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Foto de Camila Peral |
Havíamos assistido alguns espetáculos de amigos dentro desta instituição e sabíamos que lá seria importante compartilhar nosso trabalho, foi mesmo. Cerca de 400 homens que são atendidos pelo Arsenal assistiram a apresentação, além deles mais umas 20 pessoas, artistas de São Paulo e amigos vieram prestigiar.
Arsenal da Esperança é o nome do lugar que um dia abrigou imigrantes vindo de diversos países a procura de nova vida no Brasil, lá eles se hospedavam e aguardavam orientações e possibilidades de trabalhos nos vários cantos de São Paulo. Hoje é uma instituição mantida pela Igreja que atende 1200 homens por dia. Oferece abrigo, comida, alguns cursos profissionalizantes, atendimentos na párea da saúde, educação é um projeto muito importante dentro dessa metrópole engolidora da dignidade e da identidade das pessoas. Os atendidos são homens em situação de rua.
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Foto de Camila Peral |
Nos aproximamos deste local por conta da Companhia Estável de Teatro, este grupo de artistas atuam dentro do Arsenal, ocupam e oferecem Arte para a população de lá, o Arsenal é a sede da Estável. O lugar é fechado, há regras rígidas para entrar lá, mas a condição daquela imensidão de paredes, prédios e salas nos dá a nítida sensação de apresentar ao ar livre dentro dessa megalópole que é São Paulo. A cada pessoa que encontramos é uma história que ouvimos. Pessoas de todas as idades e de todas as regiões do País. encontramos uma porção de Prudentinos lá e até um ex funcionário da Cocal, empresa patrocinadora deste projeto.
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Foto Camila Peral |
Há vários artistas lá, como de costume abrimos o palco no início do espetáculo e as pessoas vieram dar o ar da graça, inicialmente dois homens tocaram em cantaram suas modas, umas duas modas de viola conhecidas e até uma autoral em homenagem ao Senna. Coisa maluca era ver os cantores se apresentando para um público difícil, um deslise na afinação ou um acorde mal tocado eles vaiavam e faziam a farra com o cantor. Surpreendentemente os cantores tinham a força de ficar, de cantar mais uma, de enfrentar aquela que provavelmente não era a única daquele dia de tentar calar a sua expressão. Um baterista também se prontificou e tocou com o Maestro Nico China e ao final um rapaz pegou o violão e tocou músicas que se comunicavam mais com aquelas pessoas, foi lindo! Parecia que a noite não ia acabar, mas o Arsenal tem seus horários e tivemos que desligar os equipamentos.
Uma amiga cantora foi nos assistir, Keury, cantou uma música e sua voz foi a única capaz de silenciar aqueles homens, após ela soltar a sua voz que é realmente encantadora víamos na cara daqueles homens antes ariscos, uma expressão de "Ursinho Pimpão", encantados. Assim começamos a nossa farra Saltimbembe Mambembancos!
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Foto de Camila Peral |
O espetáculo teve uma participação incrível, a risada foi intensa do começo ao fim, nós rimos muito! Havia um camarada imitando uma voz de criança, misturada com desenho animado que atazanou nós e o público. Quando precisamos de um voluntário ele foi ovacionado o público só pedia pára ser ele e daí foi fralda, capacete, coisa boa! Ele era um figura muito bem disposto e adorou a zoeira.
Fomos avisados pelos amigos que a palavra chave lá era "Boca de Rango" e não deu outra, quando chamávamos alguém por esse nome a galera ia ao delírio, "Boca de Rango" é uma gíria usada lá para as pessoas que chegam lá só para comer, chegam direto para a comida. São muitas reflexões sobre isso, usamos muito essa expressão durante o espetáculo, nos inserimos dentro daquela comunidade muito por conta disso, ela tem um tom pejorativo, dizer que a pessoa é o tal "Boca de Rango" é uma certa ofensa, mas durante o espetáculo a coisa virou uma identificação, nós somos os próprios "Boca de Rango", não imaginamos ter que conter a fúria da fome em nome da etiqueta e dos bons modos. A brincadeira a chacota com essa expressão lá é cultural e tem seus porquês que vão além de um relato desses ou de uma apresentação dessa. O fato é que o palhaço quando chega em um local procura essas informações da cultura local para levar pra cena e isso aconteceu de forma muito significativa nesse dia...
Por fim, muita gente feliz, muitos parabéns muitas perguntas de quando vamos voltar, esperamos que em breve, o lugar é fantástico para a arte popular que fazemos.
As fotos desse dia estão no Fliker:
https://www.flickr.com/photos/regodogorila/albums/72157659313886861
Valeu de montão amigos da Companhia Estável de Teatro!
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Foto Camila Peral |
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